Crianças vão direto para o céu?

Poucas perguntas mexem tanto com as nossas emoções quanto esta:
O que acontece com uma criança que morre sem ter tido a oportunidade de conhecer Jesus, compreender o Evangelho, se arrepender ou tomar conscientemente uma decisão de fé?
A resposta mais confortável seria simplesmente dizer: “Ela vai direto para o céu.”
Talvez seja também aquilo que muitos de nós gostaríamos de ouvir.
Mas existe uma diferença entre aquilo que desejamos que a Bíblia diga e aquilo que ela efetivamente afirma. E é exatamente aí que essa conversa começa.
Antes de tudo: este texto não pretende encerrar a discussão
Este texto não apresenta uma verdade absoluta sobre o destino eterno das crianças. Muito pelo contrário.
Minha intenção é justamente reconhecer que não encontramos nas Escrituras uma passagem dizendo de maneira explícita e inequívoca que toda criança que morre automaticamente vai para o céu.
Também não encontramos um texto afirmando categoricamente o contrário. Por isso, entramos no campo da interpretação bíblica, tentando compreender o caráter de Deus, a graça, o pecado, a responsabilidade humana e outros textos das Escrituras.
É uma discussão que merece humildade.
Crianças também precisam da graça?
Um dos primeiros pontos levantados nessa discussão é a universalidade do pecado.
Paulo escreve:
“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” Romanos 3:23
Davi também declara:
“Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe.” Salmos 51:5
A doutrina cristã historicamente entende que o problema do pecado é maior do que simplesmente uma lista de atitudes erradas que praticamos ao longo da vida.
Existe uma natureza humana marcada pela queda.
Nesse sentido, uma criança não seria salva simplesmente porque “ainda não teve tempo de pecar”.
Ela também depende da graça de Deus. Assim como eu. Assim como você. Assim como qualquer pessoa.
A grande questão, portanto, não é se uma criança precisa da graça. A questão é:
Como essa graça alcança alguém que ainda não possui consciência suficiente para compreender o Evangelho e responder a ele?
Como exigir uma decisão de quem ainda não consegue decidir?
Aqui aparece uma dificuldade importante.
O Evangelho normalmente é apresentado juntamente com elementos como: fé, arrependimento, confissão, regeneração, conversão e batismo.
Mas como exigir isso de um bebê? Como uma criança de poucos meses poderia compreender sua condição diante de Deus, entender quem é Cristo, arrepender-se e conscientemente professar fé?
Ela simplesmente não possui capacidade cognitiva para isso. E é aqui que uma frase utilizada pelo teólogo Rodrigo Silva nessa discussão me chamou bastante atenção:
Situações anômalas precisam ser tratadas como situações anômalas.
Ou seja, não podemos necessariamente pegar aquilo que acontece na experiência normal de conversão de um adulto consciente e simplesmente aplicar, sem qualquer distinção, a uma criança que sequer possui consciência formada.
Ela está diante de uma condição completamente diferente.
A própria Bíblia apresenta situações fora do padrão
Isso não significa criar outro caminho de salvação. Para o cristianismo, a salvação continua sendo pela graça de Deus e por meio de Cristo. O ponto é outro:
Deus não está limitado à maneira normal pela qual nós vemos essa graça sendo comunicada.
Um exemplo evidente é o ladrão na cruz. Ele se arrepende diante de Jesus e ouve:
“Hoje estarás comigo no paraíso.” Lucas 23:43
Até onde o texto bíblico nos permite saber, aquele homem não desceu da cruz para ser batizado. Ele não frequentou uma igreja, não participou de discipulado e não teve anos de caminhada cristã. Sua situação era extraordinária. E Cristo lidou com ela dessa maneira.
Isso não transforma a exceção em regra, mas demonstra que Deus continua soberano sobre a própria graça.
E quem nunca teve a oportunidade de ouvir?
A discussão se torna ainda mais interessante quando pensamos não apenas em crianças, mas em pessoas que viveram sem acesso ao Evangelho da mesma forma que nós tivemos.
A própria Bíblia apresenta personagens que estavam fora do centro religioso de Israel e, ainda assim, demonstraram relacionamento ou fé em Deus.
Melquisedeque, por exemplo, aparece como:
“sacerdote do Deus Altíssimo.” Gênesis 14:18
E ele não fazia parte do povo hebreu como posteriormente conheceríamos Israel.
Temos também Jetro, sogro de Moisés, sacerdote em Midiã.
No Novo Testamento, Jesus se impressiona com a fé de pessoas que estavam fora dos círculos religiosos esperados.
Quando encontra o centurião romano, afirma:
“Nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé.” Mateus 8:10
Algo semelhante acontece com a mulher cananeia. Ela não fazia parte de Israel, mas Jesus reconhece sua fé:
“Ó mulher, grande é a tua fé!” Mateus 15:28
Esses textos não ensinam que “todas as religiões levam a Deus”. Essa seria outra conclusão.
O que eles mostram é que a graça de Deus pode alcançar pessoas em circunstâncias que não cabem perfeitamente dentro dos modelos que nós conseguimos organizar.
E isso importa muito quando voltamos à pergunta sobre as crianças. Talvez a pergunta correta não seja “a criança merece o céu?” Porque ninguém merece. Se a salvação fosse uma questão de merecimento, nenhum de nós teria esperança. Talvez a pergunta seja:
A graça de Deus consegue alcançar alguém que ainda não possui capacidade de compreender aquilo que nós compreendemos?
E acredito que a resposta mais coerente com aquilo que encontramos nas Escrituras seja:
Sim, Deus pode. Como exatamente?
A Bíblia não explica. E talvez seja justamente aí que precisamos ter humildade para parar.
Mas e Apocalipse 20:12?
Existe um texto frequentemente utilizado nessa discussão:
“Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono.” Apocalipse 20:12
Alguém poderia interpretar “pequenos” como crianças. Entretanto, quando observamos o vocabulário do próprio Apocalipse, essa conclusão não parece necessária. A palavra grega utilizada é mikrós. Ela pode, dependendo do contexto, referir-se a algo pequeno e até mesmo a uma criança. Porém, o contexto precisa determinar seu sentido.
E o Apocalipse utiliza repetidamente a construção “pequenos e grandes”.
Em Apocalipse 11:18 encontramos: “dar o galardão […] aos pequenos e aos grandes.”
Em Apocalipse 13:16: “a todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres…”
Em Apocalipse 19:5: “vós […] pequenos e grandes.”
E em Apocalipse 19:18: “livres e escravos, pequenos e grandes.”
Uma expressão semelhante aparece no Salmo 115:13: “Ele abençoa os que temem o Senhor, tanto pequenos como grandes.”
Perceba o padrão. “Pequenos e grandes” parece muito mais uma expressão de abrangência do que uma classificação etária.
É semelhante a dizer:
“Do menos importante ao mais importante.”
“Do desconhecido ao poderoso.”
“Independentemente da posição social.”
Portanto, Apocalipse 20:12 está falando de crianças?
Pode existir um uso da palavra mikrós relacionado a crianças em outros contextos bíblicos. Isso é verdade.
Mas não podemos automaticamente transportar esse significado para Apocalipse 20:12.
Considerando a maneira como “pequenos e grandes” aparece repetidamente no livro, parece mais coerente entender a expressão como: pessoas de todas as posições, condições ou graus de importância.
Em outras palavras: todos estarão diante do julgamento de Deus, independentemente de sua posição neste mundo.
Por isso, na minha interpretação, Apocalipse 20:12 não é um texto suficiente para afirmar que João esteja especificamente descrevendo crianças diante do grande trono branco.
Isso também não prova que crianças não estejam ali.
Apenas significa que esse versículo provavelmente não está discutindo idade.
Então crianças vão ou não para o céu?
Minha resposta seria: A Bíblia não nos entrega uma frase direta que permita transformar uma resposta em verdade absoluta.
Ela não diz: “Toda criança que morrer irá automaticamente para o céu.” Mas também precisamos tomar cuidado para não concluir algo igualmente absoluto na direção contrária.
Sabemos que todos dependem da graça. Sabemos que Cristo é o caminho da salvação. Sabemos que Deus é justo. Sabemos que Deus é misericordioso.
E sabemos que existem situações humanas extraordinárias nas quais a própria Bíblia demonstra Deus agindo além daquilo que normalmente conseguimos sistematizar.
Uma criança que ainda não possui consciência formada, que nunca teve capacidade de compreender o Evangelho ou que sequer teve oportunidade de responder conscientemente a ele está, evidentemente, em uma situação diferente da de um adulto que conhece, compreende e rejeita conscientemente aquilo que ouviu.
Por isso, considero extremamente pertinente a ideia: Situações extraordinárias precisam ser compreendidas como extraordinárias.
Onde termina a Bíblia, deve começar nossa humildade
Talvez esse seja o ponto mais importante de toda essa conversa. Existe uma tentação de querer que a Bíblia responda detalhadamente a todas as perguntas que conseguimos formular. Mas ela nem sempre faz isso.
E quando as Escrituras silenciam sobre os detalhes, precisamos tomar cuidado para não transformar nossas deduções em doutrinas incontestáveis.
Podemos estudar, comparar textos, analisar o grego ou a concordância STRONG. Podemos observar o caráter de Deus revelado ao longo das Escrituras. Podemos formular uma interpretação.
Mas precisamos continuar dizendo: “Essa é uma interpretação.”
No meu entendimento, existem razões bíblicas suficientes para confiar que a graça de Deus não está limitada pela incapacidade de uma criança compreender intelectualmente o Evangelho. Creio que Deus é perfeitamente capaz de lidar com essas situações de maneira justa, santa e misericordiosa.
Mas não consigo apontar um versículo e dizer: “Está aqui. Toda criança vai automaticamente para o céu.”
A Bíblia simplesmente não faz essa declaração de maneira explícita.
E reconhecer isso não enfraquece a fé. Talvez faça exatamente o contrário. Porque existem momentos em que fé significa também reconhecer:
Eu não sei exatamente como Deus fará, mas sei quem Deus é. E entre uma certeza que a Bíblia nunca me deu e a confiança no caráter daquele que julga perfeitamente, prefiro sempre ficar com a segunda.
“…Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” Gênesis 18:25
